Deliberar

Fugi do mundo,
Afastei-me de tudo
E de todos,
De tudo o que era meu
E do que não era,
Isolei-me...
Fugi da agitação
Para ter paz
E sossego
Para pensar,
Deliberar...
Não sobre algo em específico,
Apenas deliberar,
Sentir a mente a trabalhar,
A alma a acordar.
Apenas deliberar
Pelo simples prazer de refletir,
Sem olhar para o meu passado
Nem para o que há-de vir.
Apenas deliberar
Para ser capaz de me inspirar!

Divagar...

Saio à rua...
A noite é escura,
Fria,
Sombria...
Entro no bosque,
Ouço os lobos uivar,
Vultos a passar,
O nevoreiro corta-me a visão...

Então perdi-me,
E sem saber o caminho de regresso,
E sem ver o espaço que me rodeia,
Começo a procurar...
A procurar luz na escuridão,
Ruído no silêncio,
Ordem na confusão...

Então descobri o rio,
E fui mergulhar
Na água gelada
Impossivel de suportar...
E deixei-me levar pela corrente,
Indo para onde ele me quisesse levar...
E levou-me até ao fim,
Onde acabou,
E me libertou
Para o enorme oceano,
Para a liberdade de errar,
Naufragar,
Como um barco que ruma sem destino,
Apenas pelo prazer de viajar,
E deixo-me ir com as ondas,
Com a lua sempre a vijiar-me,
A ver-me divagar!

Sou um mau poeta!

Sou um mau poeta!

Critico a poesia escrita,
O registo de versos,
A sua denominação de poemas...
Afirmo que isso são palavras
E nada mais,
Que são como textos
Comuns e banais,
Que a poesia deve ser espontânea
E gravada apenas na memória,
Para se tornar única,
Especial...
Mas não sou capaz de o fazer!

Sou um mau poeta
Por não parar de escrever,
Por não parar de registar
Tudo o que estou a pensar, a sentir, desejar,
Tudo o que faz parte de mim,
Por me libertar
E o divulgar
Registando-o...

Porquê?
Por que não me limito a dizer,
A falar?
Por que tenho de me contrariar?
Por que não sou um bom poeta
Se sei como o ser?
Por que não o sou
Se o poderia ser?

Só Tu sabes...

Procuro um refúgio,
Procuro um abrigo,
Que me afaste deste mal,
Que me afaste deste mundo
Cruel e infiel
Onde o mal tem maioria
E a paz anda escondida...
Procuro-o em Ti,
Tu que me dás abrigo,
Calor e conforto
Sempre que eu preciso.

Só Tu sabes
Quando preciso de Ti,
Quando estou sozinho
E desprotegido
E preciso do Teu abrigo.
Só Tu sabes...
E acolhes-me,
Escondes-me
Junto da paz,
Da Tua paz,
E alimentas-me a alma
E aqueces-me o coração,
E dás-me tudo o que eu preciso
Para continuar a viver são!

Apenas por te amar

Tenho medo...
Medo por não te ter,
Sempre,
Aqui,
Ao pé de mim...
Medo de te esquecer,
De te renegar
E deixar de te amar...
Medo de voltar
A me apaixonar,
Sem me lembrar
Que te tenho a ti
Esperando por mim...
Medo de enganar alguém
Que, apenas por não te ver,
Julgue que me tem...
Medo de um dia,
Quando te reencontrar,
Ter de quebrar um laço
Cuidadosamente trabalhado
Por alguém apaixonado...
Apenas por saber que,
Ao te voltar a ver,
Tudo voltará a acontecer
E voltaremos a ser um
Como naquela vez,
E na outras,
E nas tantas demais,
Em que eu te reencontro
E me lembro de te voltar a amar,
Porque isso,
Tenho a certeza,
Eu não posso evitar...

Viagem no infinito

As maiores viagens
São as imaginárias,
Que só existem no nosso pensamento,
Que só podemos idealizar...
Podemos caminhar muito mais,
Procurar muito mais,
Descobrir muito mais,
Viajar muito mais,
Divagar...

Apenas elas nos libertam
Das fronteiras e barreiras
Que, constantemente,
Nos impedem de ir mais longe,
De progredir...
Apenas elas nos deixam errar
Pelo infinito que só nesse mundo,
O dos pensamentos,
Existe...
Apenas elas nos levam mais além,
Até àquele lugar
Que não existe,
Mas que podemos imaginar,
E, por isso,
Só elas nos deixam alcançar!

Saudades do presente

Olho para o presente,
E, quando reparo nele,
Já é passado.
Olho para hoje,
E, quando quero aproveitar o dia,
Já é amanhã.
Olho para este momento,
Mas só o valorizo
Quando já acabou
E não posso voltar a vivê-lo.
Olho para ti,
E só percebo o que significas
Quando já não estás aqui...
Porquê?
Por que valorizamos apenas o que não temos?
Por que não sabemos ver o valor do presente?
Por que só o queremos quando já não o temos?
Por que não aproveitar cada momento
E dar-lhe o devido valor
Enquanto o podemos viver?
Por que não dizer aos outros o que significam para nós
Enquanto estão presentes
E não apenas quando sentimos saudades deles?
Só gostava de não ser humano,
Apenas para o poder fazer...

Dizem-se poetas

Dizem-se poetas,
Mestres da poesia,
Dizem que são os melhores,
Que dizem coisas mais bonitas,
Com rimas,
Versos programados,
Palavras contadas...
Dizem-se poetas
Sem saber o que isso é,
Dizem-se mestres
Sem fazer sequer poesia,
Sem darem voz à alma
E ao coração,
Dando voz apenas ao pensamento
Que os leva a dizer o que é belo
Em vez do que realmente sentem...
Mestre é quem pensa
E escreve,
Mestre é quem escreve
E não teme
O que os outros vão pensar
E dizer,
Mestre é o que escreve,
Sem vergonha,
Aquilo que é verdadeiro...

Não sou poeta
Por não temer,
Pois temo não gostar,
Não sou poeta
Por ter coragem,
Pois tenho vergonnha de me revelar,
Mas sou poeta
Por escrever o que sinto
Sem hesitar!

Verdadeira poesia

A verdadeira poesia
Não é aquela que é escrita
E fica registada...
A verdadeira poesia
É aquela que é dita
Espontaneamente,
Uma só vez,
Aquela que marca um momento
E por não poder ser repetida
Se torna única
E tão especial!

Vem...

Vem...
Deixa esse mundo,
O mundo real,
Abandona-o para sempre.
Vem conhecer outro mundo,
O meu mundo,
Um mundo infinito,
O da poesia...
Vem...
Vem comigo divagar,
Vem comigo subir montes de estrofes,
Caminhar em desertos de versos,
Nadar em mares de palavras...
Vem...
Vem ouvir a tua alma,
O teu coração;
São quem te fala
Neste mundo
Que não é uma ilusão!

A bailarina

Lá vai ela sempre a bailar,
A bailarina que não pára de dançar,
E nunca há-de parar...
É a sua vida,
A sua paixão,
Baila por prazer,
Fá-lo por diversão...
Se lhe falas em bailar
Vês os seus olhos brilhar,
Fazê-la parar
É escusado tentar...
É o seu sonho,
Um sonho real,
Vive-o,
Vive feliz,
Respira-o,
É o que a faz viver,
Sorrir,
Crescer...

Mas o sonho não durou,
E num dia
(Negro e sombrio)
Ela despertou,
Despertou do sonho,
Acordou na vida,
No pesadelo,
Terminou a alegria,
Começou a melancolia,
Jamais a viram sorrir,
Agora está a sofrer...
Os olhos
Que antes só brilhavam,
Na vida,
Nesta vida de amarguras,
De dias escuros e ruidosos,
Frios e tempestuosos,
Só conseguem chorar...
Pois a música,
A música que a fazia dançar
Deixou de tocar,
Fê-la parar...
E nunca mais conseguiu voltar!

Quem és tu?

Passa a noite
E não dormi,
A pensar em ti...
Mas quem és tu?
O que és tu?
Que fazes aqui?
És algo?
És alguem?
Estás presente?
Estás ausente?
Não sei,
Não sei quem és,
Não sei o que és
Nem onde estás,
Não sei se és algo,
Se és alguém,
Se estás aqui
Ou estás ali...
Diz-me por favor:
Quem és tu?
Diz-me quem és,
Que andas aí
Pela noite fora,
A toda a hora,
Enquanto eu estou aqui,
A noite toda,
A pensar em ti...
Diz-me quem és
E o que és para mim,
Diz-me se és alguem
E se também pensas em mim!

Surpreendes-me

Surpreendes-me...
Ainda mal te conheci
E é tudo o que tenho a dizer,
Surpreendes-me com cada palavra,
Cada frase,
Cada acto...
Surprendes-me com a tua maneira de ser,
Com a tua personalidade,
O teu modo de ver...
Surpreendes-me com o teu saber,
O que me ensinas,
Me levas a aprender...
Surpreendes-me com a tua capacidade de me surpreender,
De me impressionar,
Inspirar,
Levar a escrever...

Palavras

Palavras...
Todos as dizem,
Todos as mencionam...
Mas quem sabe o que são?
Caracterizam-nas:
Bonitas e feias,
Ricas e pobres,
Simples e complicadas...
Mas qual a sua definição?
Palavras são uma forma de expressão
Para expressarmos o que pensamos
E darmos vida à ilusão,
Para expressarmos o que nos invade a alma
E darmos luz à nossa imaginação!